Zero Hora de 11/02/2003
"Preto, aqui, só o telefone." Esta frase de um diretor da Faculdade de Medicina,
muito comentada à época em que eu lá era aluno, já não é verdadeira. Por uma
simples razão: os telefones deixaram de ser pretos. Mas os negros continuam
ausentes dos bancos universitários. Fazem parte de um grupo humano que, como o
dos índios, pagou um pesado ônus na construção deste país. Até hoje os negros
são pobres, até hoje são marginalizados - e até hoje estão fora da universidade.
Não
só no Brasil, claro. O mesmo acontece, por exemplo, nos Estados Unidos. Lá foi
estabelecido um sistema de cotas para minorias. Sistema semelhante, introduzido
em 2001 no Brasil, acaba de ser aplicado no vestibular de uma grande
universidade pública, a Uerj, do Rio de Janeiro. Com o que se acentua também a
controvérsia. Os que são a favor de cotas dizem que o sistema repara uma
injustiça histórica. Reconhecem que o difícil acesso à educação é uma
conseqüência da baixa renda, mas alegam que elevar essa renda é um processo que
vai levar anos, ou décadas, e que não dá para continuar sacrificando jovens
enquanto tal não acontece. Citam o exemplo dos Estados Unidos: lá, a formação
universitária teria ajudado a constituir uma classe média negra, algo que
colaborou em muito para diminuir o conflito racial. De outra parte, o
vestibular, como processo de seleção, não é inteiramente satisfatório.
Basicamente, leva em consideração o conhecimento (alguns diriam: a habilidade
para responder a questões), coisa que por sua vez depende de escolaridade
prévia, de preparação especial para o exame. Nada impede que uma universidade,
sobretudo pública, introduza um outro critério - social, digamos assim - na
seleção. Para voltar ao exemplo americano, é sabido que nos Estados Unidos
muitas universidades dão preferência a estudantes que têm bom desempenho
atlético; o critério social é um pouco melhor do que isso.
Os
que são contra alegam que se trata de uma espécie de racismo às avessas, que o
critério principal de admissão deveria ser a competência, e que não adianta só
admitir o estudante se lhe faltarem condições econômicas para o curso.
Enfim, estamos diante de uma questão aberta. Não dá simplesmente para marcar com uma cruzinha a resposta certa. Será preciso observar o novo sistema, aprimorar seus acertos e corrigir suas eventuais falhas. Mas uma observação se pode fazer. No passado, existia nas universidades européias um coisa chamada numerus clausus: alunos de minorias não desejadas só podiam ser admitidos até um certo número. Convenhamos: o propósito das cotas pode ser discutível, mas é, pelo menos, mais generoso.