O norte-americano Bill Tallen (52 anos, ex-hippie e ator não muito bem-sucedido) é contra a sociedade de consumo. Nisso não é muito original; não são poucos aqueles que, mesmo nos Estados Unidos, partilham essa posição. Original é a maneira que Bill Tallen escolheu para protestar. Resolveu fundar, não um partido político ou uma ONG, mas uma igreja - a lgreja do Não-Consumo. À Folha de São Paulo, Bill contou sobre o “culto” de sua igreja, realizado, não num templo, mas em alguma loja (Disney, Gap, Starbuck). Os fiéis invadem o recinto e cantam o hino Stop Shopping. Segundo Bill, alguns consumidores vêem a luz e aderem ao coro.

Igrejas não faltam aos Estados Unidos. Microsoft é uma só, MacDonald’s também, mas as seitas se contam aos milhares, mesmo que sejam minúsculas. Monopólio na economia, diversidade das crenças: Bill Tallen está perfeitamente dentro da cultura de seu país.

 

Mas será que vai ter êxito? O consumo não é apenas a mola mestra da economia americana (e da economia capitalista em geral). É hoje uma maneira de ser, uma versão da oralidade infantil. No seu extremo, vira neurose; é o caso dos “shopaholics”, pessoas que são tão dependentes do ato de comprar como o etilista é dependente da bebida. Mesmo porque o mecanismo é o mesmo; trata-se, de preencher o vazio interior com as coisas compradas.

Mas essa demanda é insaciável, e assim as casas e os closets vão ficando atulhados, enquanto a angústia permanece.

 

Comprar é bom, da mesma maneira que comer é bom. Assim como a privação do alimento, que acaba levando à anorexia nervosa, não é a solução para o problema da obesidade, o despojamento completo não é a solução para o consumismo. É preciso diferenciar entre comprar e consumir. Comprar pode ser uma atitude madura. Consumir nunca o é. O próprio termo já o sugere: consumir implica em “sumir com”, em atirar aquilo que é adquirido ao buraco-negro da voracidade não saciada. Apenas lembrando: o buraco negro é aquele- ponto do universo em que a gravidade é tão alta, que nem mesmo a luz pode existir. Tudo é sugado para a escuridão.

 

E como se estabelece a diferença? A posteriori não é difícil. O objeto consumido não tem qualquer significado para nós. Melhor dizendo, ele nos faz uma aflitiva pergunta: por que comprei essa coisa? O objeto precisa nos contar uma história, a história de nosso desejo, a história de nossa busca, a história de uma aspiração, por mais prosaica que seja. Uma vez cheguei a Nova York no inverno, e não tinha um casaco adequado. Fui a várias lojas, e numa delas encontrei o casaco de meus sonhos, o casaco a que aspirava desde a infância. O dono do pequeno estabelecimento estava de acordo: esse casaco foi feito para você, garantiu. Mas eu ainda queria procurar mais, e fui a outros lugares. Quando finalmente decidi que queria aquele casaco, já não lembrava mais onde ficava a loja. Estava desistindo da busca, quando subitamente avistei o lugar. O lojista, sinceramente emocionado, disse que o casaco estivera esperando por mim.

 

Essa roupa estava esperando por mim? Esse livro estava esperando por mim? Esse quadro estava esperando por mim? Não custa fazer a pergunta. No mínimo, ela nos ajuda um pouco no processo de auto-conhecimento. E sempre pode nos fazer poupar algum dinheiro.   (ZH 24.06.2001)       

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