Os estranhos caminhos da riqueza
Preso investe em Wall Street e fica rico. Michael Mathie, que já cumpriu 12 dos 30 anos de sua condenação por homicídio, ganhou mais de US$ 18 milhões desde 1998. Mundo, 7.fev.2001
Quando as portas da cela se fecharam, consumando sua
prisão, ele se atirou no catre e chorou, maldizendo sua má sorte: por que tive
eu de fazer aquilo, de cometer aquela bobagem? Liquidei minha vida.
Depois, mais calmo, começou a pensar no que faria. Tinha 30 anos pela frente, 30
longos anos. A melhor coisa, para ajudar o tempo a passar, seria fazer algo. Mas
fazer o quê? Não tinha profissão, não cultivava nenhum hobby, não sabia como
canalizar sua energia.
E foi então que viu o jornal, um jornal que estava ali na cela aparentemente esquecido. A manchete falava qualquer coisa entusiástica sobre Bolsa de Valores. Aquele era um assunto que não lhe interessava particularmente. Mas, como se tratava de passar o tempo, resolveu ler a notícia (ler ele sabia; tinha frequentado o colégio). E, para sua própria surpresa, ficou fascinado: mas era um jogo, aquilo, um verdadeiro jogo, que estava inteiramente a seu alcance. Tudo o que ele precisava era de um pouco de dinheiro, de alguém que fizesse os investimentos em seu lugar e, sobretudo, de tempo para colher informações. Ora, nada disso lhe faltava. Tempo, em particular, era algo que tinha de sobra.
E assim tudo começou. Assistia aos noticiários na TV, ouvia rádio, lia jornal e, depois, publicações especializadas. Homem inteligente, logo se deu conta de certas tendências no mercado de capitais. Apostou nelas e ganhou. Muito: um "killing", como se diz em linguagem da Bolsa, um massacre. Apostou mais e ganhou mais. No início, contabilizava milhares de dólares. Que rapidamente se transformaram em milhões. Quando sair da prisão terá uma fortuna para gastar.
Mas... ele quer sair da prisão? Sobre isso tem
sérias dúvidas. Já está achando que foi preso por obra do Destino. O Destino
sabia que ele ficaria rico, o Destino induziu-o a praticar um crime para assim
ser condenado. Foi o Destino que lhe assoprou ao ouvido para golpear a cabeça da
vítima com uma barra de ferro, de modo a esmigalhar-lhe o crânio. Não, ele não
quer sair.
Há quem o inveje. Recentemente recebeu uma carta. Um amigo quer partilhar com
ele a cela na prisão. E quer partilhar, sobretudo, a sorte que ele tem na Bolsa.
Fará qualquer coisa para isso. Até já providenciou a competente barra de ferro.
"Que pode", acrescentou, "ser usada em qualquer pessoa. Até mesmo em felizes
investidores".
Folha de São Paulo, 12/02/ 2001