São Paulo, sábado, 03 de fevereiro de 2001 (Folha de São Paulo) - TENDÊNCIAS/DEBATES
O Fórum Social Mundial teve um saldo positivo?  SIM

Os consensos de Porto Alegre

JOSÉ DIRCEU

A realização do FSM (Fórum Social Mundial), em Porto Alegre, já é um fato histórico, marca a retomada da busca de um mundo solidário. Um outro mundo é possível!
É preciso destacar o caráter do encontro: democrático, pluralista e de alto grau de organização. Buscou a construção de alternativas à globalização neoliberal com, durante todo o evento, uma liberdade total de opinião e de manifestação, inclusive para aqueles que se opunham à sua realização, o que não aconteceu em Davos.
O FSM marca uma mudança radical na ação das organizações não-governamentais, as ONGs, que, pela primeira vez, se uniram aos sindicatos, às entidades da sociedade civil, aos movimentos populares, aos governos e aos partidos políticos de esquerda na definição de ações e de objetivos comuns.
Não é pouca coisa.
Trata-se de um avanço na forma de atuar e nos objetivos daqueles que se manifestaram em Seattle, Washington e Praga. Um avanço na realização não apenas de protestos e de denúncias, mas na busca de alternativas e na apresentação de políticas públicas. O FSM inaugura uma forma superior de articulação de entidades e de movimentos -mais de 600, de mais de 120 países- e terá um grande impacto sobre a atuação e os objetivos desses grupos organizados. Influenciará, ainda, a vida política, social e cultural de seus países de origem.
Assistimos, em Porto Alegre, a um importante acontecimento político: a fusão de luta social e luta político-institucional. Vimos o início da constituição de uma plataforma comum alternativa ao modelo de globalização neoliberal.
Um fato pouco destacado até pela mídia foi a presença majoritária da juventude, que era maioria no FSM, dado que desmente as previsões pessimistas sobre a participação dos jovens na política e na vida pública.
Na capital gaúcha, a política predominou, mas a cultura se impôs desde o início. O discurso político foi -é preciso reiterar- pluralista e democrático, respeitando diferenças e contrários.
Para além do estudo e do reconhecimento das experiências de governo e de políticas públicas desenvolvidas por ONGs, entidades sindicais e movimentos, o fórum desenhou uma agenda e deu início à formação de uma base sólida de consenso para esse imenso, diversificado e pluralista movimento antineoliberal que sacode o mundo.
O acontecimento social mais importante desse início de milênio representa, sem dúvida, a reafirmação do compromisso com a democracia, com a cidadania e com a participação direta dos cidadãos na política e na gestão pública. Busca o respeito às diferenças e ao pluralismo e o repúdio e a luta contra todas as formas de opressão, exploração, racismo e discriminação.
O FSM deixou claro que há a necessidade de ação política e de luta social; de compromisso com a ética e de luta contra a corrupção política; de procurar formas de controle social sobre o governo e o Estado; e de reformar as organizações financeiras internacionais, controlar e taxar os movimentos de capitais (taxa Tobin) e solucionar o grave problema das dívidas dos países do Terceiro Mundo, com a anulação das dívidas dos países pobres.
É preciso redefinirmos as regras do comércio internacional para colocarmos um fim ao protecionismo dos países desenvolvidos e à degradação dos termos de troca com os países em desenvolvimento. Temos de ganhar o respeito aos Estados nacionais, à soberania dos povos e à diversidade política, cultural e religiosa da humanidade; temos de defender a paz e condenar as políticas de agressão militar e de bloqueios econômicos.
Há a necessidade de consciência planetária e ecológica, de defesa da terra, da vida e do meio ambiente; de denunciarmos a ação predatória das multinacionais e de condenarmos os transgênicos; e de condenarmos a miséria, a pobreza e o agravamento do desemprego, resultado da globalização neoliberal.
Temos de levar a bandeira da luta pela inclusão social; de definir políticas públicas de distribuição de renda, de pleno emprego e de garantia de acesso à saúde e à educação públicas e gratuitas. É preciso lutar contra a fome, pela reforma agrária e por políticas públicas que assegurem a segurança alimentar e o acesso democrático às tecnologias e à produção de alimentos.
Por esse motivo não resultou, do FSM, um único documento ou uma única conclusão, já que se pautou exatamente pela oposição ao pensamento único do neoliberalismo, que predominou em Davos. Ao contrário, o FSM é o encontro da diversidade, do plural, numa síntese de todos os movimentos.
Seu resultado maior é o início de uma ação mundial de reflexão e de construção de alternativas para priorizar o desenvolvimento humano e enfrentar os efeitos da política devastadora da globalização liberal.
Mais importante: a esperança de um mundo melhor, a confiança na ação social e política e a construção de um mundo solidário.

José Dirceu de Oliveira e Silva, 54, é advogado, deputado federal (PT-SP) e presidente nacional do partido.

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