São Paulo, quarta-feira, 31 de janeiro de 2001 (Folha de São
Paulo)
Complexidade dos transgênicos turva debate que nasceu confuso
MARCELO LEITE - EDITOR DE CIÊNCIA
Transgênicos são um prato cheio para confusão e demagogia. A ciência é
complicada, a regulamentação é enrolada e a discussão pública é no mínimo
confusa -quando existe. Para piorar, mistura-se com guerra comercial e
incompatibilidades culturais entre Europa e Estados Unidos.
Para começo de conversa, a lavoura de soja transgênica da Monsanto em Não-Me-Toque
(RS) nada tinha de irregular, porque era um campo de testes. Há mais de três
anos tais estudos são realizados no Brasil, autorizados pela Comissão Técnica
Nacional de Biotecnologia (CTNBio).
Isso não quer dizer, porém, que os alimentos transgênicos estejam liberados
para consumo no país. Estão e não estão.
Ainda na Justiça
A única autorização da CTNBio para plantio em grande escala foi dada em 1998
para a soja da Monsanto (Roundup Ready). Questionada na Justiça por organizações
não-governamentais, a decisão ainda aguarda um pronunciamento final da Justiça
Federal.
A CTNBio autorizou também o desembarque de carregamentos de milho transgênico
importado para consumo animal, mas não concedeu licença alguma para plantio no
Brasil.
Muitos entendem que isso equivaleria a uma proibição de produtos para consumo
humano contendo esse ingrediente, ainda que em quantidade pequena, às vezes
inferiores a 1%. O fato é que eles estão à venda livremente.
O próprio denominador comum desses produtos, o adjetivo "transgênico",
é enganador. Soja Roundup Ready e milho StarLink nada têm a ver um com o
outro. Ambas as plantas receberam genes de outra espécie, mas os resultados são
muito diversos.
A soja da Monsanto ganhou um gene de bactéria para tornar-se resistente ao
herbicida Roundup, da própria empresa. A proteína que a planta passa a
produzir, antes inexistente na espécie, funciona como um antídoto contra o
veneno. Ou seja, a soja modificada pode ser aspergida com o herbicida. Morrem só
as ervas daninhas.
O milho da Aventis recebeu outro gene, de outra bactéria, para resistir a
insetos. Neste caso, a proteína incorporada ao repertório bioquímico do
vegetal é ela mesma um veneno, capaz de matar insetos. O alvo são as lagartas
(brocas) de mariposas ou de borboletas que penetram no caule.
Não existe um corpo de estudos publicados em revistas científicas auditadas
demonstrando que essas variedades façam mal à saúde humana. Testes para
identificação de substâncias alergênicas conhecidas, por exemplo, deram
resultados negativos. Para os defensores dos transgênicos, isso é prova
bastante de que seus adversários não se curvam às evidências científicas, só
às próprias crenças fundamentalistas.
Os adversários dos transgênicos, por seu turno, alegam que os testes não são
confiáveis porque não têm como detectar substâncias alergênicas
desconhecidas (e a engenharia genética, efetivamente, está introduzindo novas
substâncias na cadeia alimentar). Devolvem a acusação de fundamentalismo,
dizendo que os biotecnólogos têm fé cega na própria capacidade de consertar
tecnologias que se revelem perniciosas.
A questão ambiental
Não existem estudos e testes com escala temporal e espacial adequados para
verificar os efeitos de todas essas variedades sobre o solo e seus
microrganismos, sobre populações de insetos que não são pragas, sobre pássaros
que se alimentam de sementes das ervas daninhas exterminadas.
Essa é uma discussão mais ampla, que não diz respeito só às lavouras transgênicas,
mas sim à agricultura como ela é conduzida hoje, ultra-intensivamente. Há
quem diga que ela está a caminho de esgotar recursos naturais, como solos e
reservas de água.
Por isso, quando você ouvir que os transgênicos vão acabar com a fome no
mundo, ou então que essa tecnologia pode por si só causar a ruína de milhões
de camponeses no mundo, desconfie.
A biotecnologia pode ser um recurso para aumentar a produtividade agrícola, mas
não é uma bala de prata nem está isenta de efeitos colaterais, ora difíceis
de avaliar. Por outro lado, a concentração da propriedade intelectual sobre as
sementes mais rentáveis do planeta em meia dúzia de empresas não chega a ser
tranqüilizadora.
Transgênicos ainda darão muito pano para manga. O problema é que os lados
envolvidos na discussão só aceitam conduzi-la na base da frente única.
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