São Paulo, terça-feira, 06 de fevereiro de 2001 (Folha de São Paulo)

FERNANDO DE BARROS E SILVA

O velho e o novo em Porto Alegre

Duas imagens foram fixadas pela mídia nacional a respeito do Fórum Social Mundial. Sendo antagônicas, ambas desempenham papéis complementares no sentido de desqualificar o significado do anti-Davos.
A primeira, induzida pela infelicidade verbal de FHC, pipocou um pouco por toda parte até receber, numa síntese bem dosada de ignorância e má-fé, tratamento exemplar da revista "Veja", na reportagem de título "Cuba + Bové: o saldo de Porto Alegre".
A outra avaliação, menos maledicente em suas intenções, diz, em resumo, que Porto Alegre teria mostrado o avanço das ONGs sobre as esquerdas tradicionais, reféns de velhos ideais.
Bandeiras políticas redentoras e partidos de oposição teriam perdido terreno para a ação difusa e capilar de grupos e pessoas bem-intencionados e voluntariosos, mais empenhados em resolver problemas concretos e pontuais do que em defender grandes causas ou ideologias coletivistas.
Ocorre que o fórum de Porto Alegre não foi apenas -nem sobretudo- uma reunião de viúvas do socialismo real ou de dinossauros brandindo bordões carcomidos. Nem, tampouco, uma confraternização da classe média filantrópica, que estaria ali mostrando ser possível conviver sem culpa com as grandes injustiças do mundo, desde que cada um faça sua pequena parte para minorá-las.
Nem José Bové nem Milú Villela servem como modelo para explicar o anti-Davos -este o ponto principal.
Não é fácil, talvez nem seja possível, tirar uma conclusão, ainda que meramente jornalística, de um encontro que reuniu cerca de 10 mil pessoas organizadas em mais de 400 oficinas sobre assuntos muito variados.
Ainda assim, o aspecto político mais relevante do fórum, pouco mencionado, foi o sentimento antiamericano ali presente, que funcionou como elemento catalisador de grupos heterogêneos. Em parte isso deve à organização franco-brasileira do encontro. Mas se deve também à consciência crescente de que a globalização -esse palavrão da moda- não é a expressão de uma marcha inelutável da história, mas a tradução do poderio e dos interesses econômicos e políticos do império norte-americano.
É nesse contexto, de um novo surto "antiimperialista" (aqui vale o palavrão), que devem ser entendidas tanto as alusões simpáticas a Cuba, na abertura do fórum, como os gritos de guerra "FMI, somos filhos de Zumbi" ou "Viva a África", na cerimônia de encerramento. A menção à ilha de Fidel, mais do que elogio a uma experiência histórica condenada, expressou antes um "revival" terceiro mundista encarnado na maior vítima dos EUA. Tanto foi assim que os aguerridos militantes do PSTU foram vaiados enfaticamente em quatro ocasiões, no final do fórum, quando ensaiaram gritar "não, não, não, capitalismo não, queremos socialismo e revolução".
Como disse certa vez o cientista político José Luís Fiori, é a primeira utopia da era moderna, a utopia liberal -anterior à utopia socialista, que desembocou no stalinismo, e à utopia nacional-socialista, que culminou no nazismo-, que agora começa a ser posta em xeque, depois de viver, ao longo da última década, o seu apogeu histórico.
Paradoxalmente, o fórum de Porto Alegre, na sua diversidade babélica, encontrou um denominador comum numa espécie de antiutopia. Ninguém sabe que expressões políticas tomará esse dissenso embrionário. Mas interessa aos porta-vozes do tucanismo, os verdadeiros novos-caipiras deslumbrados com a globalização, encerrá-lo numa ilha. Ou nos gestos "subversivos" de um simplório campônio.

Fernando de Barros e Silva é editor do Painel da Folha.

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