O Bush não sabia o que estava dizendo
quando falou em “cruzada” contra fundamentalistas islâmicos fanáticos logo
depois dos atentados. Avisado de que o termo não pegara bem entre muçulmanos não-integristas,
já que evocava as sangrentas excursões de cristãos da Idade Média para
liberar as terras santas e mexia com ódios antigos, não o usou mais. Mas
algumas confusões semânticas persistem no noticiário e nas análises da situação
e é sempre bom procurar as origens das coisas, para pelo menos manter a
perspectiva, já que é impossível manter a calma.
Recente artigo no Le Monde lembrava que
palavras como fundamentalismo e integrismo têm origem cristã, e que islamita não
é o mesmo que islâmico e muito menos que muçulmano. O fundamentalismo nasceu
nos Estados Unidos em 1919, quando pastores protestantes formaram a “World’s
Christian Fundamentals Association” para defender pontos da fé cristã que
consideravam fundamentais, como uma interpretação literal da Bíblia. Até
hoje há Estados americanos em que o ensino da teoria de Darwin sobre a evolução
humana é proibido, ou só é permitido se o chamado criacionismo ou a versão bíblica
da criação do mundo for ensinado também.
A palavra “integrisme” apareceu no
meio católico da França depois que o papa Pio X condenou, numa encíclica de
1907, o “modernisme” que reivindicava um reestudo dos dogmas da Igreja à
luz da ciência. Os adversários mais violentos da revisão se identificavam
como “católicos integrais” por defenderem a integridade da sua fé, e eram
chamados pelos outros de “integristes”.
“Fanatismo” tem origem mais remota.
Vem de ‘fanum “, ou templo em latim, e,
portanto, também tem a ver
com religião. Voltaire o chamou de “esse filho desnaturado da religião”. E
nunca é demais lembrar que o maior exemplo do fanatismo religioso em armas da
história moderna, depois das cruzadas, foi a reconquista da Espanha pelos católicos.
Naquela vez foram os árabes que se escandalizaram com a “jihad” cristã.
O sentido das palavras muda com a história. “Integrisme” aplicado ao mundo islâmico é relativamente recente, vem da revolução teocrática do Irã e se refere à pretensão de integrar o social e o político ao religioso, além de recuperar a integridade dogmática da fé muçulmana ameaçada pelo secularismo e as tentações modernas. Islamitas são os islâmicos que vêem na sua religião não apenas uma doutrina mas uma causa e um princípio coerente de ação, radical ou não. E a história não pára, nem para os fundamentalistas. O talibã, por exemplo, já está sendo chamado de “neofundamentalista” ou - era inevitável na França, país da semântica como uma das artes sociais - de “pós-islamitas”.
(Zero Hora 11.10.2001)