O que se está dizendo

Luís Fernando Veríssimo

O Bush não sabia o que estava dizendo quando falou em “cruzada” contra fundamentalistas islâmicos fanáticos logo depois dos atentados. Avisado de que o termo não pegara bem entre muçulmanos não-integristas, já que evocava as sangrentas excursões de cristãos da Idade Média para liberar as terras santas e mexia com ódios antigos, não o usou mais. Mas algumas confusões semânticas persistem no noticiário e nas análises da situação e é sempre bom procurar as origens das coisas, para pelo menos manter a perspectiva, já que é impossível manter a calma.

Recente artigo no Le Monde lembrava que palavras como fundamentalismo e integrismo têm origem cristã, e que islamita não é o mesmo que islâmico e muito menos que muçulmano. O fundamentalismo nasceu nos Estados Unidos em 1919, quando pastores protestantes formaram a “World’s Christian Fundamentals Association” para defender pontos da fé cristã que consideravam fundamentais, como uma interpretação literal da Bíblia. Até hoje há Estados americanos em que o ensino da teoria de Darwin sobre a evolução humana é proibido, ou só é permitido se o chamado criacionismo ou a versão bíblica da criação do mundo for ensinado também.

 

A palavra “integrisme” apareceu no meio católico da França depois que o papa Pio X condenou, numa encíclica de 1907, o “modernisme” que reivindicava um reestudo dos dogmas da Igreja à luz da ciência. Os adversários mais violentos da revisão se identificavam como “católicos integrais” por defenderem a integridade da sua fé, e eram chamados pelos outros de “integristes”.

“Fanatismo” tem origem mais remota. Vem de ‘fanum “, ou templo em latim, e,  portanto,  também tem a ver com religião. Voltaire o chamou de “esse filho desnaturado da religião”. E nunca é demais lembrar que o maior exemplo do fanatismo religioso em armas da história moderna, depois das cruzadas, foi a reconquista da Espanha pelos católicos. Naquela vez foram os árabes que se escandalizaram com a “jihad” cristã.

O sentido das palavras muda com a história. “Integrisme” aplicado ao mundo islâmico é relativamente recente, vem da revolução teocrática do Irã e se refere à pretensão de integrar o social e o político ao religioso, além de recuperar a integridade dogmática da fé muçulmana ameaçada pelo secularismo e as tentações modernas. Islamitas são os islâmicos que vêem na sua religião não apenas uma doutrina mas uma causa e um princípio coerente de ação, radical ou não.  E a história não pára, nem para os fundamentalistas. O talibã, por exemplo, já está sendo chamado de “neofundamentalista” ou - era inevitável na França, país da semântica como uma das artes sociais - de “pós-islamitas”.

(Zero Hora 11.10.2001)

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